segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

temores toponímicos

Muito gosta o autor de ir sem rumo embrenhar-se na cidade. Procurar uma travessa deserta para escutar os murmúrios surdos da calçada e cheirar o Alentejano. No entanto, há uma ou outra artéria, que lhe causa, vá lá saber-se porquê, inquietantes calafrios. Tantos, tão gélidos, que só ao longe lá passa.
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domingo, 6 de Dezembro de 2009

do álbum de memórias não vividas

É o retrato mais antigo que tenho. Tem 147 anos. Foi tirado a 19 de Novembro de 1862, está datado no verso, a carvão muito sumido. Não sei quem é, como se chamava, onde viveu. Provavelmente um familiar de uma amiga da minha trisavó Ludovina, que ela também conheceu e estimou. Sempre o conheci no álbum da minha avó, numa das últimas páginas. Aquele álbum pesado, que já era velho quando ela era nova, pois já tinha sido da sua avó. Aquele álbum que agora é meu, do qual me apoderei para de vez em quando mergulhar, qual terapia, no passado do que sou. Gosto de coleccionar memórias, e depois?

sábado, 5 de Dezembro de 2009

minha farmeville

O autor sente-se um alienígena. Um excluído social, sempre à parte das conversas e dos códigos das tribos egocêntricas por onde pulula. Não partilha, não interage. Não tem vizinhos, vive isolado. É um marginal. Não tem farmeville, bem se vê. Não tinha. Agora já tem, que quer sociabilizar, ser alguém. É um pouco diferente, admite. Cresce aqui sem horas, entre posts, a ganhar sustento no pasto das contradições. É excêntrica, esquisita, não prospera no facebook como as demais.
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A Sé, a Fé e as invasões francesas

Cada vez que se abeira da Sé, quiçá por não lhe tocar o apelo do Divino, lembra-se sempre o autor daquela tarde do dia 29 de Julho de 1808, em que as tropas invasoras do General Loison, guiadas pela cegueira do saque e da barbárie, capturaram todas as mulheres que no seu caminho se cruzaram para as violar sobre as lajes frias do Templo Maior. Apre! Tanto Santo arauto da virtude e da castidade espectado nos altares da Catedral e nenhum foi capaz de valer às pobres senhoras, ali mesmo, diante deles, cobardemente desonradas. Mas que Livro é este, afinal, que nem na sua Casa vela pelas fiéis paroquianas?
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sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009

Óbidos, os retratos e as razões insondáveis

Continua o autor testando os limites da paciência da meia dúzia de leitores que ainda o seguem. Se por um lado sem pejo usa e abusa dos retratos extraídos da tal lente «olho de peixe», por outro, insiste, de forma algo obsessiva, naqueles tais que captou em Óbidos, assim, misteriosamente, como se nenhum outro lugar na terra lhe interessasse mostrar. São mistérios insondáveis, entenda-os quem puder. Se puder. E já agora, se não for pedir muito, roga-se ao visitante que quando se cansar de tentar entender, tenha a fineza de fechar a porta antes de sair.
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quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009

pela rua direita

De Óbidos continua o autor exibindo retratos, que poucas mas boas horas lá passou há cousa de dias em seu périplo muito mais que mundano. Como este, da estreita embora principal Rua Direita, que sem desvios curvilíneos conduz o viajante da Porta da Vila ao Paço dos Alcaides e ao castelo.
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quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

uma pausa na terra das horas longas

Subindo a Rua dos Mercadores rumo à Praça Grande que veio a ser de Giraldo, o tal que sem pavor expulsou a moirama da planície, encontra o viajante curioso recanto que faz jus à fama dolente do Alentejo. Aí, ao redor da bica de onde brotava a água vinda do Divor, três cadeiras convidam à pausa de quem sobe a ladeira com tempo de sobra na algibeira do colete. Com muita calma, que por estas bandas a pressa de chegar nunca fez grande sentido.
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terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

fall winter shot # 1

Dezembro instala-se. Mesmo no coração da selva urbana, faz a Natureza questão de mostrar sem pudores a nudez do seu Inverno.
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segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

muito mais que uma passagem

Rumou o autor à margem sul do Tejo para de longe retratar a tal ponte que tem sido o palco dilecto de tantos outros retratos. Lá chegado, percebeu que a dita liga muito mais que duas margens, liga vidas desencontradas que a meio do nada se reencontram.
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acesso condicionado

No burgo amuralhado de Óbidos constatou o autor que, afinal, essa história da casa de Deus estar sempre de portas abertas não passa de meia verdade.
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domingo, 29 de Novembro de 2009

no presépio vivo

De súbito, alcançado que foi o topo da muralha castreja da vila de Óbidos, antinómicos pensamentos se digladiaram na densa e insondável nebulosa que é a mente do autor. Se por um lado fazia gáudio em manter intacto seu herético ateísmo, por outro, logo se sentiu parte integrante do presépio vivo que, lá em baixo, no preservado burgo medievo, harmoniosamente se desenrolava. Raios partam os paradoxos insanos, as sensações inusitadas, o putativo espírito natalício e mais a puta que os pariu a todos.
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sábado, 28 de Novembro de 2009

mudar de vida

Para quem, estando cansado do bulício da cidade grande, tenha jeito para receber e queira mudar de vida para começar uma outra, bem mais saudável, na pacatez das horas longas do Alentejo.
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quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

mais uma volta

É sempre mais uma ficha, mais uma volta, para outra viagem relâmpago no carrossel das emoções. Néons intermitentes e ruídos estridentes rompem o silêncio e a pacatez da noite alentejana. O autor até gostava de gostar, para comungar das sensações da maralha. Já tentou, acreditem. Mas debalde, não consegue gostar.
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quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

auto-retato

O autor, quiçá fatigado de andar constantemente deambulando sem eira nem beira em busca de fragmentos do mundo e da vida dos que nele pululam, teve seu momento de fraqueza ao deixar resvalar uma leve pontinha de narcisismo, a qual, ainda que ténue, se manifestou para a posteridade em forma de auto-retrato aqui plasmado. Fraquezas de quem anda de lente em punho e de súbito se reconhece reflectido nas pedras da calçada.
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o Arade que corre solto

Antes de alcançar a foz, o Arade é um imenso espelho de água que desliza solto para se fundir no azul luminoso do oceano virado ao sul. Imponente, nem a terrível praga que é mole disforme do betão armado sobre a margem direita lhe consegue mitigar a beleza serena que emana do leito caudaloso.
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segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

o aqueduto e a cidade

Bem mais antigo que o das águas livres de Lisboa é o da água da prata em Évora, aqueduto que da nascente do Divor conduz o precioso líquido ao coração do burgo amuralhado. Transposta a cerca fernandina, é pela Rua do Cano (que outro nome poderia ter?) que vai entrando na velho urbe e se funde com o casario alvo da cidade.
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domingo, 22 de Novembro de 2009

vistas largas sobre a Praça

Agora sim, tem o autor visão realmente periférica. Acoplada que foi a lente «olho de peixe», é vê-lo andar por aí com o fito de resgatar vistas largas, como esta, em que lhe cabe a Praça toda num retrato.
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sábado, 21 de Novembro de 2009

devaneios alfarrábicos

Gosta o autor bastante dos livros novos que vai descobrindo, adquirindo, lendo e arrumando. Mas venera muito mais aqueles outros, os antigos, que fizeram pulsar corações que hoje já não batem. Abri-los, tocar-lhes, folheá-los, fazê-los respirar de novo, parece, nem que seja pelo breve instante de um virar de página, devolver à vida quem um dia, no passado, os leu também. Os livros são objectos transcendentes, é certo, mas podemos (e devemos) amá-los do amor táctil.
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sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

regresso ao Alentejo

Andando o autor semanas a fio embrenhado a contragosto no cinzentismo amorfo da selva urbana, é como se lhe lavassem a alma quando por fim assenta a vista no horizonte largo do Alentejo.
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quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

da cerca do castelo altaneiro

Dissipada que foi a bruma sobre a baía mais a alucinação dela resultante com o tal episódio do regresso de El-Rei D. Sebastião, rumou de novo o autor ao Castelo para resgatar da Piscosa Sesimbra o retrato de um dia luminoso.
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quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

ocaso outonal no Garb Al Andaluz

Num dia outonal no Garb Al Andaluz, de céu pesado ameaçando desabar em chuva, o sol agigantou-se na hora telúrica do ocaso antes de se sumir triunfante na vertigem difusa do poente.
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terça-feira, 17 de Novembro de 2009

a guardiã do Tejo e de Lisboa

A Torre de Belém é a guardiã do Tejo e de Lisboa, anfitriã emproada que à porta recebe quem pelo rio aporta na cidade das colinas feitas de luz.
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segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

da grande estrada vê-se um castelo

Vencidas que estejam sete léguas de asfalto na grande estrada que rompe o sul, não se olvide o viajante de desviar seu olhar para a direita. Fazendo-o, deparar-se-á com o milenar castelo de Palmela erguido lá no cimo tão alto que dele se alcança o rio e o mar.
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domingo, 15 de Novembro de 2009

por entre os canteiros do quintal

É certo que a vida nem sempre é um mar de rosas. A maior parte das vezes está, até, bem longe de o ser. Mas, de quando em onde, abre-se a porta de casa pela fresca da manhã e lá se encontra uma ou outra que desponta, viçosa, por entre os canteiros do quintal.
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sábado, 14 de Novembro de 2009

ocaso sobre o mar da Piscosa

Àquela hora, pararam por um instante as águas da baía mais a brisa que vem do largo para formar um espelho baço onde o ocaso pudesse reflectir seus tons suaves sobre o mar de Sesimbra.
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sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

da cidade e do rio

Quem por Lisboa deambula, por vezes desemboca em artérias que rompem o casario aninhado para revelar uma nesga do Tejo e o Cristo Rei que da outra banda contempla, altivo, o corropio da cidade.
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quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

no extremo nascente da Piscosa

Tomou o amontoado rochoso no extremo nascente da baía, lá onde nasce o astro rei, esta forma desordenada no dia em que a terra tremeu mais que nunca. Não foi só Lisboa que sucumbiu ante o terramoto de 1755, também Sesimbra sentiu sua fúria desmedida.
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quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

um postal da ria formosa

Ruma desta feita o autor para sul ao encontro do Garb Al Andaluz para tão somente constatar que nenhum outro nome para além de Formosa poderia ostentar esta ria majestosa que serpenteia a costa para bandas de Sotavento. Sobretudo nos troços em que a mácula da presença humana não logrou (ainda) deixar seu rastro dissonante.
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terça-feira, 10 de Novembro de 2009

(novo) falso alarme para o regresso

Aproveitava o autor o dia soalheiro para das ameias do castelo melhor desfrutar das vistas sobre a Piscosa que lá em baixo se espraia diante do mar, quando, de súbito, se abateu denso manto de bruma sobre as falésias em redor. Quiçá sugestionado pela aura do local, que é pródigo em lendas de mouras encantadas que por ali ainda vagueiam, instalou-se-lhe nas entranhas forte pressentimento que seria desta que finalmente regressava El-Rei D. Sebastião do seu exílio voluntário em terras de Marrocos, aproveitando para o efeito, com grande sentido económico, que sempre foi, diga-se, apanágio de Suas Majestades lusitanas, a boleia das embarcações que de Sesimbra aí vão pescar. Imaginando já o exclusivo do retrato que iria resgatar, escapava-se-lhe a câmara por entre as mãos trémulas de entusiasmo, ao ponto de ter de a assentar na velha muralha, não fosse a dita resvalar promontório abaixo. Absorto na expectativa de captar a imagem do regresso, permaneceu horas a fio de lente empunhada, sem sequer se aperceber que, entretanto, a névoa se tinha dissipado para dar lugar a um sol radioso sobre o qual El-Rei nunca iria desembarcar.
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domingo, 8 de Novembro de 2009

queda do(s) muro(s)

Na altura em que se assinalam 20 anos sobre a queda do muro de Berlim, o autor recorda que subsistem muitos outros por derrubar. Os da injustiça, da intolerância e da desigualdade, entre outros hediondos, continuam, infelizmente, bem firmes e de pé.
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das origens da piscosa

No princípio, foi o torreão mourisco de atalaia que deu origem à torre de menagem medieval e à alcáçova do castelo. De seguida, veio um tempo novo em que Sesimbra já não cabia nela e estenderam-se as muralhas em torno do promontório. Depois, veio outro tempo ainda em que voltou a não caber dentro de si e desceu do cume para tocar o mar que é o seu prolongamento natural.
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sábado, 7 de Novembro de 2009

dissertações holandesas

Há coisas que não têm explicação aparente, como esta de andar o autor à deriva por Lisboa em busca de retratos com algum pendor estético e dar de caras com um prédio medonho, hediondo, daqueles que lhe causam arrepios na epiderme ao ponto de o paralisar diante dele. Nessa pausa involuntária, reparou que o topo do dito edifício ostentava, entre outras, a bandeira holandesa, justamente por ali funcionar a representação diplomática dos Países Baixos, o tal que não obstante a designação plural é um reino só. Inexplicavelmente, no exacto momento em que constatou o que acaba de relatar, viu-se o autor acometido de desmedido impulso, sabe-se lá vindo de onde, de envergar aquela sua pele de viajante e à Holanda de imediato rumar em visita de estudo, sem antes, diga-se, deixar escapar um sorriso algo enigmático e constatar que a sanidade que lhe assiste é bem escasso que já teve dias de muito maior abundância.
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sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

a ponte é uma passagem

Acreditem que leva o autor a semana inteira sonhando com o momento de a atravessar rumo aos seus destinos dilectos do Sul. A ponte é uma miragem, bem diziam os «jafumega» e lá está outra vez a música dos idos de 80 a intrometer-se por entre as prosas, os retratos e os pensamentos que os unem.
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quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

parecenças de vizinhança

Vista assim à contra luz do rossio que lhe fica contíguo, a Ermida de São Brás em Évora até podia figurar num postal ilustrado do vizinho Magreb, tantas são as semelhanças com os templos do lado de lá.
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quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

efémeras juras de amor eterno

O autor, embora liberal e tolerante no que concerne aos costumes, sempre abominou inscrições vândalas em monumentos, estatuária e demais volumetria que inspire algum carácter de solenidade. Nessa senda, a romântica conspurcação na base da estátua de Garcia de Resende, em Évora, era de todo desnecessária, tanto mais que para além das nefastas consequências inestéticas e do prurido que isso causa a este vosso criado, é muito provável, face à voracidade das paixões dos dias de hoje, que a Priscila já nem sequer namore com o Ricardo, porque, entretanto, lhe apresentaram o Fábio e antes dele o Nilton e o Leandro e que ele, o Ricardo, já nem se lembre dela, da Priscila, porque depois disso conheceu a Neusa e a Vanusa e antes delas a Melissa e a Fabiana, que até eram mais dadas que a púdica Priscila. Por quase sempre ser assim, pede o autor, encarecido, que não se materializem efémeras juras de amor eterno nas pedras solenes que são de todos.
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terça-feira, 3 de Novembro de 2009

uma paleta de cores sobre o céu do Alentejo


Por vezes, lá emergem razões para o autor se considerar um homem de sorte. Como esta, de se assomar à janela ao fim de um dia ameno de outono e dar de caras com estonteante paleta de cores derramada sobre o céu do Alentejo. Na cidade grande, a selva de cimento não deixa ver ocasos assim.
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segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

atracção equestre

À primeira vista, não entendeu o autor a razão de tamanha concentração de mulherio em torno de um certo e determinado equídeo que se encontrava nas imediações da arena de Évora. Curioso, assomou-se este vosso criado da dita aglomeração e, por entre empurrões e cotoveladas das galvanizadas senhoras que não queriam perder pitada do que ali se exibia, lá conseguiu, muito a custo, abrir uma nesga por onde sua lente resgatou a proeminente explicação.
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domingo, 1 de Novembro de 2009

ergueu-se uma Lisboa nova sobre outra que sucumbiu faz hoje 254 anos

Camuflado por entre uma densa mole de turistas, ascendeu o autor ao topo do elevador de Santa Justa para constatar que não fosse a terra ter tremido numa fúria desmedida faz hoje 254 anos e o traçado de Lisboa não seria certamente aquele que no presente se pode deste altaneiro posto contemplar. Castigo divino - e merecido - diziam alguns teólogos à época, por ter o Senhor, sempre Atento, encontrado afrouxamento na lusitana devoção à sua Altíssima Pessoa. O autor, que não viu a Lisboa medieva que lhe antecedeu, mas muito gosta desta a que chamam pombalina, está na disposição, mesmo ateu, de recitar uns quantos terços para que o Dito não se ire e não mande novo castigo que a arrase outra vez.
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sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

a extinção de um mester

Como bem atesta o retrato que hoje se revela, os últimos dos poucos pescadores que no Tejo restavam, desolados com a míngua de pescado, a galopante poluição, mais o raio das quotas que lhes impõem uns tipos lá do centro da Europa que nem nunca viram o mar, largaram tudo de vez para não mais voltar. Assistiu assim o autor, que por irónico acaso do destino ali passava no exacto momento do desepero, à extinção do velho mester tão português.
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quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

uma corte no Alentejo

Não é pelo facto de ser republicano dos 7 costados que o autor vai negar que D. Manuel I deu provas de muito bom gosto ao instalar por longas temporadas a corte na cidade de Évora, no imponente palácio que viria a ostentar o seu nome. Pudera, boa pinga dos frades cartuxos ali à mão de enjorcar, daquele tinto encorpado que quase dá para trincar, para não falar nos dotes das prendadas freiras que dos conventos em redor lhe vinham adoçar a boca, e quiçá mais qualquer coisa, e ainda as suculentas viandas de suíno criado à solta nos montados da planície, ora servidas no espeto sobre brasas ora em forma de presuntos, paios, palaios, painhos, paiolas, cacholeiras, linguiças e demais enchidos de fumeiro de azinho. E como se tudo isso fosse pouco para ali assentar arraiais, tinha ainda a serena tranquilidade do Alentejo, que todos os prazeres permite desfrutar.
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segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

a posta restante

Alguns talvez pensem tratar-se daquela parte do peixe menos carnuda e pouco suculenta, mais pródiga em espinha e cartilagem e que, por isso, tende a ficar na travessa por ninguém lhe pegar. Mas não, é antes aqueloutra onde se deposita a correspondência que aguarda o resgaste do respectivo destinatário. É mesmo assim, nos correios como na vida, nem tudo o que parece é.
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domingo, 25 de Outubro de 2009

de Évora para as trincheiras

A estátua alada que em bronze se ergue no rossio de São Brás, lembra a quem ali passa que também de Évora tombaram filhos nas trincheiras de La Lys, o sangrento campo de batalha onde, para além deles, muitos outros milhares de portugueses serviram de carne para os canhões aliados.
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sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

silhueta de Lisboa


Virou-se o autor para poente, àquela hora difusa em que o sol é quase todo uma sombra, para resgatar a silhueta de Lisboa.
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quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

uma curiosa constatação

O autor, ao passar junto da tumba onde faz de conta que Camões jaz, foi, de súbito, confrontado com curiosa constatação que o fez, por momentos, duvidar da sua plena sanidade: ora se a defunta figura em pedra esculpida corresponder, de facto, ao fiel retrato do poeta, é caso para sem pejo se dizer que o pé do dito era directamente proporcional ao seu enorme talento.
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terça-feira, 20 de Outubro de 2009

o lamento da fortaleza


Há quem diga que as pedras não falam, mas o autor, que aqui já provou que não ser bem assim, quase jura ter ouvido um lamento profundo soltar-se de dentro da muralha gasta e polida pelo constante embate de incontáveis marés. Queixava-se da míngua de corsários ao largo da baía, outrora infestada dos ditos de olho de vidro e cara de mau, e de há muito não sentir correr-lhe nas lajes a adrenalina por defender a Piscosa dos saques como, valente, fazia nos saudosos tempos de antanho. Pudera, é que nesta Sesimbra dos dias modernos, os piratas estão todos em terra firme e a velha fortaleza de Santiago continua virada de frente para o mar, teimosamente à espera do que já não virá.
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segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Ao redor da «Cerca Velha» # 8 - as Portas de Moura

O autor, que continua seu périplo ao redor da muralha romana, árabe e visigótica de Évora fazendo as vezes do tal guia free-lancer com pseudo pretensões de turismo cultural, alerta o viajante que parta da Torre do Anjo na Porta da Selaria rumo à Alcárcova de Baixo e ao Largo da Misericórdia que não encontrará vestígios visíveis da «cerca velha» até chegar às Portas de Moura, a entrada sul do primitivo burgo, assim designada por daí partir a antiquíssima estrada que levava a esse topónimo. Conta-se que esta porta, cujas torres subsistem de pé, se encontra com parte da estrutura bastante soterrada, existindo vestígios do primitivo arco no subsolo entre os torreões.
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domingo, 18 de Outubro de 2009

uma praia repleta de ninguém

Que me perdoem a ponta de egoísmo, mas por vezes, de quando em onde, gosto de ver a Piscosa assim, com o areal repleto de ninguém.
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Ao redor da «Cerca Velha» # 7 - a Torre do Anjo e a Porta da Selaria

A Torre do Anjo é a que chegou aos nossos dias das duas que guardavam a Porta da Selaria, que para além delas tinha ainda um fosso para sua defesa. A outra torre, a do Caroucho, foi demolida em 1530 por ordem de El-Rei D. João III, depois de perder a função militar com a construção da muralha fernandina.
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sábado, 17 de Outubro de 2009

uma prece paradoxal

Pode parecer paradoxal, mas as velhinhas que por aqui matam o tempo à soleira das portas garantem que a figura graffitada numa esquina do Bairro Alto implora todas as noites que não mais lhe maculem as paredes com gatafunhos horrendos.
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Ao redor da «Cerca Velha» # 6 - a Alcárcova de Cima

O viajante que sem pressas percorra o estreito caminho por entre os prédios centenários da Alcárcova de Cima, a dois passos da Praça Grande que viria a ser de Giraldo, o tal que sem pavor expulsou a moirama do Alentejo, facilmente se depara com um troço bem visível da muralha romana.
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sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

a piscosa bonança da fragata guerreira

A «Corte-Real», que andou pelos agitados mares da Somália a escorraçar piratas em patriótica missão internacional, retempera forças nas águas mansas ao largo de Sesimbra. «Depois da tempestade corsária vem a bonança piscosa», solta, entre duas vigorosas esfregadelas no convés da proa, o marujo que teima em moldar com seu cunho os sábios ditos que do povo emanam.
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quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

voos rasantes sobre a baía

Quem dera a muitos ser gaivota por instantes para fazer voos rasantes sobre as águas mansas da baía de Sesimbra.
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quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

Rua do Carmo - revivalismo 80`s

Ainda sobre o rock português dos idos de 80, há tempos aqui recuperado a propósito de uns tais cavalos de corrida que por aí retratei, veio-me à memória a Rua do Carmo e as mulheres bonitas subindo o Chiado...
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terça-feira, 13 de Outubro de 2009

a luz de Lisboa

Subiu o autor ao topo do ascensor que se ergue em Santa Justa, que é miradouro centenário de onde se alcança o rio e a cidade quase toda, para ver se mesmo em dia de tons cinzentos sua lente captava a tal luz que dizem só haver em Lisboa. E lá estava ela, ao longe, reflectida no Tejo que é seu espelho.
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segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

o Tejo e a cidade

Abismado com a sublime paisagem de Lisboa, o cargueiro que passava ao largo entrou pela barra para ver de perto o Tejo e sua cidade dilecta.
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domingo, 11 de Outubro de 2009

o mar de Sesimbra

O autor teve já oportunidade de em seus périplos pelo mundo se deparar com considerável cifra de mares. Contudo, não teve ainda ensejo de encontrar algum que cheirasse como o de sua Sesimbra. Nem melhor, nem pior, mas diferente, como um cheiro quase próprio, familiar, ao ponto de só pelo olfacto o distinguir dos demais.
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sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

sacras considerações de um pagão

Está bom de ver que não é pelo facto de não ter sido tocado pelo dom da fé que o autor se acha impedido de tecer considerações sobre seus sagrados desígnios. Como esta, de peremptoriamente considerar que não há templo mais divino que a igreja do Carmo, a que tem como tecto o celeste firmamento.
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sobre o próprio #2

Para calar todos quantos vêm, ao longo dos anos, de forma reiteradamente caluniosa, afirmando que o autor é sujeito de pretensões pseudo intelectuais, mais dado ao mundo dos livros e pouco amigo da prática desportiva e das coisas da moda.
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quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

do Tejo, para ir mais além

O homem solitário fixa seu olhar no gesta do cardeal navegador. Talvez queira encontrar destinos venturosos, saber pelo próprio como se inrompe do Tejo para ir mais além.
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o corcunda da Torre de Belém

Enervam sobremaneira o autor aqueles arautos da pelintrice que proclamam à boca cheia serem muito melhores os monumentos que se erguem em terras estrangeiras. Porque, dizem, são mais imponentes e têm mais coisas e etc e tal, como a Notre Dame de Paris, por exemplo, que para além de sublime e grandiosa até tem um corcunda que dá lhe certa aura. Pois que se calem de vez esses pacóvios que nossa Torre de Belém, para além de bela e portentosa, tem seu corcunda também.
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quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

ao cimo da Travessa da Espera

Andando o autor a calcorrear becos e vielas do Bairro Alto em busca de fragmentos de vida para aqui plasmar, eis que na Travessa da Espera sua lente captou um par de velhinhas que de tanto esperarem pelo futuro dos dias, alcançaram juntas o cimo da ladeira da vida.
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em Belém, mais da piscosa Sesimbra

Não conseguiu o autor ouvir bem o que a guia relatava ao interessado grupo excursionista que no Mosteiro dos Jerónimos rodeava a tumba de Luís Vaz de Camões. Contudo, a avaliar pela atenção da audiência, em sepulcral silêncio como o local exigia, só podia naquele momento estar ensinando que o vate que faz de conta que ali jaz foi quem primeiro chamou piscosa à nossa Sesimbra.
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pias recomendações

O autor quer-lhe parecer que depois de em Belém ter lido a pia recomendação plasmada na parede da ermida de Nossa Senhora da Conceição, vai passar a dar mais atenção à palavra do Senhor.
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terça-feira, 6 de Outubro de 2009

três centenas de posts lavrados

Três centenas de posts lavrados, um número redondo que hoje se assinala. E não é que parece ser de espanto a expressão da carranca maneirista que habita nas ruínas do Convento do Carmo. Mesmo velha de tudo já ter visto, não queria a dita acreditar no autor quando este, ao passar diante dela, lhe anunciou a cifra atingida. Para conferir scroll abaixo.
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da minha rua vê-se o mar

«Da minha língua vê-se o mar«, escreveu Vergílio Ferreira. E da minha rua idem, acrescenta o autor ao mostrar sua Rua do Norte, na Piscosa Sesimbra.
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segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

um verso que não sai da canção

Foi preciso ir o autor a Grândola, que é vila morena e terra de seu pai, para ver que o verso de Zeca Afonso teima em não sair da canção.
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domingo, 4 de Outubro de 2009

sobre o próprio

O autor até tenta, na medida do possível, ser um tipo modesto e humilde, contudo, quando são os outros a exaltar-lhe as pretensas qualidades, considera não ser de bom tom refutá-las.
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sábado, 3 de Outubro de 2009

exclusividade aqui ao lado


Muito bem perguntarão os leitores se questionarem o porquê de ir o autor para Londres armado ao pingarelho mirar as luxuosas montras de Sloane Street, se tem griffs ainda mais exclusivas aqui ao lado, na Rua do Comércio, em Portimão.
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prognóstico pós-eleitoral #3

Ao deparar-se com pitoresca imagem recolhida no velho casco urbano de Portimão, alvitrou o autor inquietante prognóstico pós-eleitoral: A caminho de São Bento, Sócrates poderá encontrar Portas que de súbito se destranquem.
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sexta-feira, 2 de Outubro de 2009

chafurdar na lama

Afinal, chafurdar na lama não é apanágio exclusivo das suínas criaturas. Há muito boa a gente a copiar-lhes o gesto.
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prognóstico pós-eleitoral #2

Inspirado pelo retrato extraído numa banca do mercado do Largo 1º de Maio em Évora (que antes da emancipação do proletariado foi de São Francisco), alvitrou o autor inquietante prognóstico pós-eleitoral: mesmo que obtenha resultado positivo nas autárquicas, Manuela vai passar as passas do algarve para se manter sentada no trono de São Caetano à Lapa.
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quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

prognóstico pós-eleitoral # 1

Inspirado pelo insólito que lhe foi dado ver num segundo andar da Alcárcova de Cima, paredes meias com o que resta da antiga muralha romana de Évora, alvitrou o autor inquietante prognóstico pós-eleitoral: Sócrates poderá encontrar no novo parlamento Portas que o conduzam ao abismo...
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quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

soluções para a crise

Que rumem sem delongas a Lisboa os desavindos casais deste Portugal. É que se encontra anunciada numa das entradas da cidade milagrosa solução para suas crises conjugais.
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Cliquem vossas excelências sobre o retrato para melhor enxergar do que se fala

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

feeling toponímico

A avaliar pelo diz que disse (ou não disse), quer ao autor parecer que o lobby laranja adiou sine die a petição que na Freguesia dos Prazeres corria para mudar a toponímia da célebre Travessa do Possolo. Assim, quem quiser ver uma com o nome que antes lhe pretendiam dar, que em Évora suba a Rua da Ladeira e vire à direita mal aviste a Praça Grande que hoje é de Giraldo.
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domingo, 27 de Setembro de 2009

Ao redor da «Cerca Velha» # 5 - a Rua Nova

Constatou o autor em seus périplos alentejanos, que só numa urbe como Évora, nascida na noite dos tempos, pode uma artéria com quinhentos anos chamar-se «Rua Nova». E calando quem diz que as pedras não falam, igualmente se apercebeu que permanece bem visível na base da Torre de Sisebuto o local onde esta se ligava ao trecho da «Cerca Velha», a muralha romana, árabe e visigótica, derrubado em 1536 a quando da abertura da dita rua nova.
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sábado, 26 de Setembro de 2009

arqueologia sindical

Numa decrépita varanda da Praça de Giraldo, jaz abandonado curioso vestígio de arqueologia sindical. Esbatido pelas impiedosas marcas do tempo, quase ninguém repara no símbolo do outrora próspero sindicato dos trabalhadores metalúrgicos de Évora e Beja. Excepcionando tal regra de indiferença, ali detectou o autor paradigmático exemplar de pujante iconografia pós-revolucionária e diante dele sua lente imobilizou. Estão lá representados, com singelas pinceladas de inspiração soviética, a hercúlea força de quem pega no batente do trabalho e a robustez dos meios colectivos de produção. Só não consta a representação do vil metal. Naquele tempo, ao que parece, sonhavam dispensar o capital.
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sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

ovelhas negras num rebanho de eleitores

O autor, que por aqui pouco aflora as questiúnculas do dia-a-dia, de modo algum pretende influenciar o sufrágio que aí vem.
Tão somente gostava que cada um fosse a ovelha negra no manso rebanho dos eleitores. Que cada qual não se deixasse ir às cegas no dito, votar em quem lhe sussurrem ao ouvido. Que vote o povo em quem muito bem entenda, inclusive na Carmelinda ou no Pinto Coelho, pois claro e porque não, conquanto o faça livre e determinado pela sua exclusiva vontade.
Pode parecer insano ou irreal, mas ainda há gente que não sabe que o voto é expressão da liberdade.
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quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

os quatro cantos do mundo




Garb, Piscosa, Alentejo e Olissipo. Quem numa vertigem calcorreie scroll abaixo pelos posts que se vão deixando, verá que é entre estes quatro cantos que quase sempre o autor ciranda em seus périplos mundanos. São, por isso, os quatro cantos do seu mundo.
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heréticas contemplações celestiais

Na célebre Igreja de São Francisco, a salvo das vistas pela penumbra da arcaria de híbrido estilo manuelino-mudejar, captou o autor momento que não fosse seu herege paganismo, bem poderia classificar de mística contemplação celestial.
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quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

os meninos da Graça

Volta-se hoje ao local que ontem se visitou para mostrar os «meninos da Graça». O povo de Évora, que durante séculos calcorreou aquele Largo, nunca soube, por não ter como saber, que as magníficas estátuas de granito sobre as pilastras da Igreja da Graça, representam quatro mitológicos atlantes da autoria de Nicolau de Chantarene, o escultor francês responsável pela porta axial do Mosteiro da Santa Maria de Belém, a que todos chamam dos Jerónimos por terem sido estes os frades que por lá oravam.
Diz a local tradição secular que as robustas figuras representam os «meninos da Graça», os primeiros mártires lançados à ignóbil fogueira da Inquisição que crepitou na Praça de Giraldo no ano (da graça) de 1543. E se a sua imensa sabedoria o diz, é porque assim é.
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terça-feira, 22 de Setembro de 2009

alentejo renascentista

Sempre que desemboca no Largo da Graça e se depara com a igreja da dita, tem o autor a sensação de estar em Roma ou Florença. Aqui, só mesmo a tórrida canícula das tardes de verão lhe traz à lembrança o Alentejo.
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segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

o regresso de Balboa

Não é à toa que a fé no glorioso anda em crescendo por esses campos da bola a fora. Jesus, iluminado, parece ter milagrosa solução para tudo. Até para o renegado Balboa, qual Lázaro da 2ª circular, encontrou ocupação alternativa, como bem atestam as personalizadas sacas de cimento que o ex-merengue irá acartar. Não é que a construção civil esteja de vento em popa, longe disso, mas sempre é melhor que estar parado sem jogar.
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sábado, 19 de Setembro de 2009

as carrancas do chafariz


Ergue-se na Praça Grande, que viria a ser de Giraldo, marmóreo chafariz quinhentista. Daqui corria o precioso líquido trazido pelo Aqueduto da água de Prata, da boca escancarada de suas oito carrancas que, diz a tradição, simbolizam as oito artérias a desembocarem no majestoso terreiro. O autor, como nunca mostra tudo, pois quer que quem o lê também o busque, só revela retratos de duas delas.
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Ao redor da «Cerca Velha» # 4 - a Torre de Sisebuto

Recupera-se a série «ao redor da Cerca Velha» para mostrar a robusta Torre de Sisebuto. Situada no gaveto da Alcárcova de Cima com a Rua Nova, faz parte integrante do antigo Paço dos Melos de Carvalho, já desaparecido. Obras de adaptação do edifício permitiram sondagens arqueológicas que levaram à conclusão de que a base da muralha é de época tardo-romana (séc. III) e que assenta sobre parte de uma habitação romana do séc. I, decorada com frescos. Coisa pouca.
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sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

são mentes sãs em corpos sãos

São muitas mentes sãs em muitos corpos sãos, à custa da aula de hidroginástica na babugem da Praia da Rocha, bem entendido. Não fossem as insuportáveis colunas sonoras a vomitar um barulho do demo, o autor virava a cara para o lado de Ferragudo e até nem se importava com o exercício das hostes.
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um barco de piratas

Eu nunca os vi bem, mas devem ser destes que as fragatas portuguesas vão caçar ao largo da Somália. Seja como for, é manifesto desperdício de combustível ir apanhá-los tão longe se há fartura deles cá deste lado.
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a refundação

Quer parecer ao autor que a maioria dos que se arrastam nesta campanha sonolenta, não leva muito a sério sua missão nas eleições. Se calhar, é porque já têm os pares consertado que se a coisa desta vez bater no fundo, como tudo indica, começa-se do zero e refunda-se a nação numa terra de ninguém, como esta do arquipélago das ilhotas inóspitas, a quatro ou cinco metros do areal do Vau.
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quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

cavalos de corrida

afinal, mesmo depois de caídas as melenas de quem os cantava, ainda andam por aí à solta os cavalos de corrida. Animado por tão duradouro galope, quase me atrevo a dizer que é imortal o "rock português" dos idos de 80.
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um harmonioso silêncio

bem fez o casal em virar costas ao burburinho da cidade dos homens para escutar o harmonioso silêncio que emana do grande aquário dos peixes mudos. Pena tem o autor de não poder juntar-se-lhes na assistência.
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terça-feira, 15 de Setembro de 2009

conspirações no claustro do Espinheiro

D. João II, o Príncipe Perfeito, principal seguidor das políticas de expansão marítima iniciadas por seu tio-avô, o Infante D. Henrique, tinha, ao que parece, gradas pretensões de centralismo (seria, grosso modo, aquilo a que hoje se apelida de "asfixia democrática") e, como tal, manuseava os régios cordelinhos para retirar poderes à aristocracia e concentrá-los no seu trono. Ora tais desmandos absolutistas provocaram a ira da nobreza proscrita que amiúde conspirava contra sua real pessoa. Feito o necessário enquadramento histórico para o que a seguir se vai contar, prossegue o relato dizendo que o Príncipe Perfeito era hóspede assíduo do Convento do Espinheiro pela grande devoção que guardava à Senhora do dito. Homem de fé robusta, muitas vezes lá ficava para passar as noites em vigília diante da Senhora, rezando pela sorte do Reino. Numa dessas noites de oração, subiu o sacristão ao terraço a apanhar a fresca quando ouviu vozes sussurrantes no claustro. Surpreendido, pôs-se à escuta e através de uma fresta, num ápice se apercebeu tratar-se de um grupo de ilustres fidalgos tramando terrível conspiração contra El-Rei. Mui diligente, mal rompeu a manhã, correu a contar o sucedido a Sua Majestade. Não obstante os séculos que entretanto passaram, talvez os hóspedes do lá instalado «Convento do Espinheiro Heritage Hotel & SPA», quando hoje passeiem pelo claustro no intervalo de uma sauna ou banho turco nocturno, consigam ouvir os fantasmagóricos lamentos dos nobres denunciados pelo delator sacristão.
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segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

rua da selaria acima

Com as constantes andanças estivais, ora garb abaixo, piscosa acima, que é por lá que se espanta a canícula com uns valentes banhos de mar, há dois meses que não sobe o autor a Rua da Selaria para desembocar no Largo do Marquês de Marialva e ter como prémio a visão que aqui se mostra. Não é que lhe apeteça o frio e as ventanias, mas o Alentejo já chama por si.
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sábado, 12 de Setembro de 2009

troco de dono - como novo

Culpa da falta de confiança dos mercados, da revisão em baixa ou de outra vácua redundância qualquer, vá lá saber-se qual, o certo é que se vendem poucos carros novos em Portugal. Não que assim se queira, mas porque se não pode comprar. E não podendo novo, compra o povo um carro usado, seguindo, no caso, elementar regra de proporção: quanto menos puder, menos novo compra, dando-se por feliz, ainda assim, de poder comprar.
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na peixaria bom gosto

Não há por aqui insípido peixe de aviário, daquele que nunca soube o que é nadar à solta na vastidão dos oceanos. Esta requintada banca só tem imperador, garoupa, gorazes, cherne, robalos da costa, salmonetes da fundura ou frescas pescadinhas de anzol. Mesmo o carapau e a sardinha, quando os há, só em samll size de jaquinzinho ou petinga. Tudo isto, com puro bom gosto na hora de amanhar.
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sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

um fado triste

Triste fado o daqueles que se vêem impedidos de cumprir seu destino. Como o candeeiro órfão de lâmpadas, impedido de romper o breu da noite pela desleixada incúria de quem o largou ao abandono.
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quinta-feira, 10 de Setembro de 2009

inquietante déjà vu na Ilha do Farol

Vá lá saber-se porquê, mas mesmo a 300 longos quilómetros para sul, há algo de dissonante na paisagem da ilha que de sopetão me devolve o inquietante déjà vu de estar em plena Fonte da Telha ou na kitsch Cova do Vapor.
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quarta-feira, 9 de Setembro de 2009

empadinhas de piscos da Piscosa

Outra razão para ser Sesimbra a Piscosa, curiosa, embora muito pouco verosímil que Camões a tenha usado como factor determinante para a génese do epíteto, são os piscos e as empadinhas que com eles se confeccionavam, famosa iguaria da gastronomia sesimbrense, muito requisitada nos meandros da corte, e que o vate certamente terá provado nos intervalos das declamações que aí levava a cabo. Com efeito, nessa época, os limites da póvoa eram envolvidos por densa mata de frondoso arvoredo. Tomando partido desse acolhedor ecossistema à beira-mar plantado pela mãe natureza, os piscos, pequenas aves migratórias, ali faziam escala antes de pousarem nas redondezas do Cabo de São Vicente, última etapa da rumagem ao norte de África, mal o frio se fazia sentir no sul da Europa. Os sesimbrenses, aproveitando essa breve pausa, ganharam o hábito de capturar uns quantos piscos acabados de arribar para com eles confeccionar umas apetitosas empadinhas. Ora se no luso reino havia lugar onde abundava o petisco, a iguaria e tudo quanto de bom se pudesse trincar, esse lugar era a régia corte, pelo que lá não faltavam nunca as empadinhas de piscos de Sesimbra, muito apreciadas pelas comensais majestades e demais fidalgos comedores. Contudo, com os constantes abates de arvoredo e consequente delapidação da mata - assim o ditava a então muito activa indústria da construção naval e o crescimento do casario em ampla expansão - os piscos deixaram de poder arribar nas suas copas e abandonaram, progressivamente, a rota que incluía a paragem em Sesimbra. Assim, nos princípios do séc. XVIII, já quase não havia piscos na piscosa e, para grande desconsolo dos gulosos apreciadores, lá se extinguiu a iguaria por falta da indispensável matéria-prima.
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terça-feira, 8 de Setembro de 2009

porque é Sesimbra a Piscosa

Por serem já uns quantos os leitores curiosos que me têm questionado o porquê de nos meus escritos apelidar Sesimbra de Piscosa, desvenda-se hoje a origem do epíteto. É-o, porque assim a imortalizou Camões em «Os Lusíadas», como forma de sublimar a fartura de espécies piscícolas que então abundavam na baía de Sesimbra, facto que lhe granjeava fama de piscosa por todo o reino de aquém e d´além mar. Infelizmente, a abundância deu lugar à míngua e hoje só pela graça da secular tradição se pode chamar Piscosa a Sesimbra.
Pode ler-se no canto III, estrofe LXV: «(...) com estas subjugada foi Palmela e a Piscosa Sesimbra(...)».
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segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

um retrato de Lisboa

Andando o autor, nestes tempos de estio, do Garb para a Piscosa e da Piscosa para o Garb, não se estranhe, pois, que os assuntos à baila trazidos desagúem necessariamente em temas com elas relacionados, já que são, como se sabe, os retratos extraídos o ponto de partida para o que aqui se relata e desvenda. Assim o determina a vincada linha editorial deste espaço, qual prepotente Moura Guedes da blogosfera (com as devidas distâncias de grau e género, saliente-se). Mutatis mutandis, quando este vosso servo veste o macacão de escriba, mais não faz do que cumprir o que lhe dita o patronato, que no caso até é a mesma pessoa, a sua, se bem que com pele distinta, que por aqui veste duas, fruto das complexidades e especificidades das hierarquias laborais reunidas num único sujeito, o autor. Pode quem manda e obedece quem tem de obedecer. Assim será até ao fim dos dias, salvo se a tal Revolução um dia triunfar, coisa que para já se afigura pouco provável, ante a tamanha passividade e dormência que por aí grassa e anestesia as impávidas multidões do proletariado. No entanto, no caso concreto, pouca diferença faz, que os atritos resultantes da eterna luta de classes são aqui pouco mais que nenhuns, dada a singular, e já referida, cumulação de funções.
Enfim, tanta verborreia tão só para dizer que pese embora as constantes deambulações que lhe têm ditado os temas, o autor recorre hoje à famosa arca virtual dos retratos para mostrar uma imagem de Lisboa, que a sua costela olissiponense já andava algo sentida com o seco ostracismo a que tem sido votada.
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domingo, 6 de Setembro de 2009

retrato de duas imagens

O idílico cenário da Ria Formosa não é apenas palco de recreio de reluzentes veleiros, é também, e sobretudo, lugar de árduo trabalho para as gentes que vergadas pelo peso das agruras lhe rebuscam os fundos em busca do parco sustento.
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outro retrato da piscosa

Estando o autor, por capricho do destino, nas costas do casal no exacto instante que se mostra, aproveitou a ocasião para resgatar o momento, que a posse contemplativa até favorecia a composição de mais um retrato da Piscosa Sesimbra.
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